Você está aqui: Página Inicial / Notícias / Outubro Rosa: Mamografia e Ultrassonografia

Outubro Rosa: Mamografia e Ultrassonografia

Esclareça dúvidas frequentes sobre o uso de mamografia e ultrassonografia mamária para diagnóstico de câncer de mama

Publicada em 04/11/2021

Outubro Rosa

Para concluir as ações do Outubro Rosa de 2021 a médica do MPU, Dra. Gerli Araújo Gonçalves Coelho, especialista pela Sociedade Brasileira de Mastologia respondeu questões de membros e servidores sobre os exames de mamografia e ultrassonografia mamária, além de esclarecer dúvidas sobre a relação das mamas densas com o aparecimento do câncer de mama. Confira!

1 – Qual é a idade indicada para a mulher realizar a mamografia e qual a sua frequência? Alguns médicos brasileiros seguem as recomendações da medicina norte-americana e recomendam a realização do exame a partir dos 50 anos, qual a sua recomendação? A indicação altera para pacientes que não apresentam risco de câncer de mama na família?

A resposta a essa pergunta é complexa já que não há consenso entre os órgãos governamentais e as sociedades médicas sobre a idade do início e frequência do rastreamento do câncer de mama. Consequentemente, há recomendações divergentes entre eles, e entre os diversos países. São vários aspectos a serem avaliados e existem argumentos que justificam as diferentes condutas.

O câncer de mama é o tipo mais frequente de câncer de mama não cutâneo e a causa mais frequente de morte por câncer em mulheres em todo o mundo. Mulheres que NÃO tenham fatores de risco aumentado para câncer de mama, só por serem mulheres, já apresentam um risco de 12,4% de ter câncer de mama no decorrer da vida, o que é considerado um risco médio. Essa alta incidência justifica a procura dessa doença na população, mesmo que não tenha sintomas, o que é chamado “rastreamento”. O rastreamento mamográfico reduz as chances de morrer por câncer de mama e possibilita o tratamento precoce.

Entre as pacientes COM fatores de risco, a chance de ter câncer de mama no decorrer da vida é alto, podendo variar de 20 a 60%. Alguns desses fatores são mutação genética, história de câncer de mama em parente de primeiro grau e biópsia anterior de mama com lesão de alto risco, por exemplo. O rastreamento nessa população é diferente e deve ser individualizado pelo médico assistente (ver pergunta 4).

Nas mulheres em geral, a incidência do câncer de mama começa a aumentar a partir dos 40 anos. A mamografia não deve ser realizada abaixo dessa idade pela menor incidência e porque o exame não é muito sensível nessa faixa etária, pois nesse grupo habitualmente as mamas são muito densas, e a identificação de lesões malignas em mamas com essa característica fica prejudicada. O rastreamento anual a partir dos 50 anos é consenso. Nas mulheres entre 40 e 49 anos é que se dá a maior divergência de conduta, e elas devem ser informadas sobre o custo benefício do exame, podendo ser tomada uma decisão compartilhada.

Os argumentos contra o rastreamento nas mulheres entre 40 e 49 anos se baseiam na efetividade do exame e no impacto na mortalidade. A sensibilidade da mamografia é menor que nas pacientes mais velhas, sendo diagnosticados cerca de 73% dos cânceres aos 40 anos, enquanto nas pacientes com 60 anos o diagnóstico é de 85%. Há uma maior incidência de “falsos positivos”, lesões benignas que são consideradas suspeitas indevidamente, resultando em mais biópsias desnecessárias. Além disso, o impacto na redução da mortalidade não é tão grande quanto no grupo de mulheres a partir dos 50 anos.

Os argumentos a favor do rastreamento abaixo dos 50 anos se dão pelo benefício do rastreamento comparado a não o fazer, ainda que menor em relação as mulheres acima dessa faixa etária. O rastreamento diminuiu a mortalidade em 12% nas pacientes aos 40 anos, enquanto a diminuição aos 65 anos é de 30%. A partir dos 45 anos de idade, os riscos de ocorrência e mortalidade superam os riscos de diagnósticos falso positivos. No Brasil um dos poucos serviços que tem uma base de dados confiável, o do estado de Goiás, mostra que 40% dos casos de câncer de mama se dá em pacientes abaixo de 50 anos, que estariam excluídas do diagnóstico precoce se o rastreamento não se der nesse grupo. Embora exista uma preocupação entre as pacientes sobre a exposição à radiação ionizante, ela é extremamente baixa na mamografia e não causa câncer de mama nem de tireoide.

No Brasil, o rastreamento mamográfico é oportunístico e recomendado pelo Ministério da Saúde dos 50 aos 65 anos, bianualmente. Essa estratégia tem menor impacto na mortalidade com melhor custo-benefício e menor número de biópsias. A Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícias recomendam rastreamento anual a partir dos 40 até 75 anos. Essa estratégia é a que tem maior impacto na mortalidade, menor custo (levando em conta os anos de vida salvos com qualidade) e maior efeito adverso (biópsias).

Diante desses fatos, o importante é que a paciente seja bem informada sobre os benefícios e riscos do rastreamento e levando em conta todos os fatores, possa fazer a melhor escolha para a sua saúde. 

2 – A ultrassonografia mamária é suficiente para detectar qualquer sinal de nódulos malignos?

A ultrassonografia não foi avaliada em estudos randomizados (considerados os com melhor evidência científica) de rastreamento do câncer de mama quanto a um efeito na redução da mortalidade por câncer de mama. Por isso, não é uma modalidade de rastreamento inicial apropriada, mas é um complemento à mamografia em pacientes com densidade mamária aumentada e útil em pacientes de risco nas faixas etárias nas quais a mamografia ainda não apresenta boa acurácia.

Ela é comumente usada para o acompanhamento diagnóstico de uma anormalidade vista na mamografia de rastreamento para esclarecer características de uma lesão potencial.

3 - Poderia falar sobre mamas densas, sua relação com o aleitamento materno em curso x mamografia?

Quando há indicação médica, a mamografia pode ser realizada em pacientes lactantes, porque a radiação ionizante não afeta o bebê que está amamentando. Entretanto, para um exame de rotina, sem nenhuma suspeita específica, há de se pesar o custo-benefício. A mama durante a amamentação fica com mais densidade e nodularidade, o que dificulta a identificação das lesões mamárias, diminuindo a sensibilidade do exame. Além disso, o tecido mamário está em fase de proliferação, o que o deixa mais sensível a radiação ionizante, o que pode levar a hipótese de um pequeno aumento de risco de câncer de mama ao longo da vida, embora isso não tenha sido comprovado.

4 - Quais os cuidados que uma mulher de mama densa com histórico de câncer de mama (mãe) deve ter?

O acompanhamento médico constante é essencial em pacientes com risco aumentado para câncer de mama, como são as pacientes com parente de primeiro grau com câncer de mama. O médico realizará semestralmente o exame físico e definirá os exames e a sua frequência, de acordo com a idade e o padrão mamário, entre as opções de mamografia, ultrassonografia mamária e ressonância nuclear magnética das mamas.

O auto exame mensal deve ser realizado a partir dos 18 anos de idade.

Além disso, cuidados gerais com a saúde podem diminuir o risco de câncer de mama, como manter-se dentro do Índice de Massa Corporal recomendado, evitar o consumo de álcool, além do consumo de uma dieta rica em fibras, pobre em gordura saturada e a prática de atividade física regular.

 

Referências

Bleyer A, Welch HG. Effect of three decades of screening mammography on breast-cancer incidence. N Engl J Med 2012; 367:1998.

Oeffinger KC, Fontham ET, Etzioni R, et al. Breast Cancer Screening for Women at Average Risk: 2015 Guideline Update From the American Cancer Society. JAMA 2015; 314:1599.

Siu AL, U.S. Preventive Services Task Force. Screening for Breast Cancer: U.S. Preventive Services Task Force Recommendation Statement. Ann Intern Med 2016; 164:279.

Myers ER, Moorman P, Gierisch JM, et al. Benefits and Harms of Breast Cancer Screening: A Systematic Review. JAMA 2015; 314:1615.

Keating NL, Pace LE. New Guidelines for Breast Cancer Screening in US Women. JAMA 2015; 314:1569.

Câncer de mama: Vamos conversar? Prevenção, acolhimento e cuidado/ UniversidadeFederal de Goiás (Hospital das Clínicas, Centro Avançado de diagnóstico da mama); Associação de Portadores de Câncer de Mama do Estado de Goiás. Organizadores: AnneKaroline Ferreira de Paiva; Jordana Carolina Marques Godinho Mota; Kacielli Filipini; KarineAnusca Martins; Larissa Vaz Gonçalves; Maria Janaína Cavalcante Nunes; Patrícia CristinaBarreto Lobo; Tatyanne Letícia Nogueira Gomes. Goiânia: UFG-HC/APCAM, 2021

https://sbmastologia.com.br/mamografia-principal-e-unica-forma-de-deteccao-precoce/

Lee JM, Arao RF, Sprague BL, et al. Performance of Screening Ultrasonography as an Adjunct to Screening Mammography in Women Across the Spectrum of Breast Cancer Risk. JAMA Intern Med 2019; 179:658.

Burton KR, Park AL, Fralick M, Ray JG. Risk of early-onset breast cancer among women exposed to thoracic computed tomography in pregnancy or early postpartum. J Thromb Haemost 2018; 16:876.

Ahn BY, Kim HH, Moon WK, et al. Pregnancy- and lactation-associated breast cancer: mammographic and sonographic findings. J Ultrasound Med 2003; 22:491.

Expert Panel on Breast Imaging:, diFlorio-Alexander RM, Slanetz PJ, et al. ACR Appropriateness Criteria® Breast Imaging of Pregnant and Lactating Women. J Am Coll Radiol 2018; 15:S263.

Scheuer L, Kauff N, Robson M, et al. Outcome of preventive surgery and screening for breast and ovarian cancer in BRCA mutation carriers. J Clin Oncol 2002; 20:1260.

Saslow D, Boetes C, Burke W, et al. American Cancer Society guidelines for breast screening with MRI as an adjunct to mammography. CA Cancer J Clin 2007; 57:75.

National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology. Genetic/familial high-risk assessment: Breast and ovarian. https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/pdf/genetics_bop.pdf (Accessed on February 04, 2020).

White AJ, DeRoo LA, Weinberg CR, Sandler DP. Lifetime Alcohol Intake, Binge Drinking Behaviors, and Breast Cancer Risk. Am J Epidemiol 2017; 186:541.

Neuhouser ML, Aragaki AK, Prentice RL, et al. Overweight, Obesity, and Postmenopausal Invasive Breast Cancer Risk: A Secondary Analysis of the Women's Health Initiative Randomized Clinical Trials. JAMA Oncol 2015; 1:611.

Kehm RD, Genkinger JM, MacInnis RJ, et al. Recreational Physical Activity Is Associated with Reduced Breast Cancer Risk in Adult Women at High Risk for Breast Cancer: A Cohort Study of Women Selected for Familial and Genetic Risk. Cancer Res 2020; 80:116.

Chlebowski RT, Aragaki AK, Anderson GL, et al. Association of Low-Fat Dietary Pattern With Breast Cancer Overall Survival: A Secondary Analysis of the Women's Health Initiative Randomized Clinical Trial. JAMA Oncol 2018; 4:e181212.

registrado em: Saúde em Rede, Medicina
Portal da Saúde
login